Vacinação no masculino: a vacina contra o HPV não é só para mulheres

Desde 1 de outubro de 2020 que a vacina contra o HPV é indicada a rapazes nascidos a partir de 2009 no PNV. O Prof. Luís Varandas explica a importância.

A introdução da vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV) no Programa Nacional de Vacinação (PNV) português, em outubro de 2008, teve como alvo inicial as raparigas. Mais de dez anos depois, com entrada em vigor a 1 de outubro de 2020, a vacina foi alargada aos rapazes nascidos a partir de 2009. Para abordar o tema da “vacinação no masculino” e os seus benefícios, contámos com a colaboração do Prof. Luís Varandas, pediatra e membro da Comissão de Vacinas da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP).

A vacina contra o HPV nos diferentes países foi, numa primeira fase, dirigida às raparigas. Embora não fosse seletiva de género, foi muito identificada como sendo a vacina contra o cancro do colo do útero por ser a doença que o HPV provoca com maior peso na saúde. Quem o diz é o Prof. Luís Varandas, que traça o trajeto científico até se perceber “que o HPV provoca uma série de neoplasias, não só do colo do útero, mas de outras zonas não exclusivas do sexo feminino – anogenital, orofaríngea –”, pelo que a vacina passou a ser recomendada também aos rapazes.

Era novembro de 2018 e a Assembleia da República aprovava na especialidade do Orçamento de Estado para 2019 a introdução no PNV das vacinas contra o rotavírus, contra a meningite B e, para os rapazes, contra o HPV. Na altura, a decisão gerou polémica por o parlamento se ter adiantado ao parecer da comissão técnica de vacinação, que aconselha a Direção-Geral da Saúde (DGS), suscitando críticas de como esta decisão não deve ser política, mas sim técnica, suportada pela evidência científica.

O processo atrasou-se e a entrada prevista para 2019 passou para o ano seguinte, já com o aval técnico para o alargamento comparticipado da vacina contra o HPV no final do ano de 2019. Por este motivo, apesar de a inclusão no PNV se destinar aos rapazes de dez anos, determinou-se que a vacina (duas doses) seria administrada também aos que nasceram em 2009, seja para iniciar o esquema de vacinação, seja para completá-lo. “Provavelmente considerou-se que não seria correto começar uma vacina com efeito posterior a essa data, uma vez que a decisão já tinha sido feita no ano anterior”, presume o especialista.

“Na política nacional de saúde há sempre um ponto de corte, que é muitas vezes um pouco arbitrário”, explica o Prof. Luís Varandas. No entanto, acrescenta que “a decisão política é independente da decisão biológica”. A esse nível, o aspeto mais importante é vacinar antes de haver contacto com o vírus, dado que a vacina, altamente eficaz do ponto de vista preventivo, “não é curativa”.

A administração deve, por isso, ser efetuada antes do início da atividade sexual para uma maior eficácia. Todavia, o pediatra ressalva que é “uma decisão individual”. Elabora que não é por se ter iniciado a atividade sexual que deixa de haver necessariamente interesse em vacinar, pois é possível que não tenha havido exposição ao vírus ou a alguns dos subtipos de HPV existentes que são abrangidos na vacina nonavalente (com nove genótipos/tipos de HPV), pelo que esta pode continuar a ser eficaz. O médico esclarece que “não é pela idade que deixa de ser”.

Assim, a decisão de vacinar preferencialmente aos dez anos relaciona-se com o facto de se assumir que nesta idade ainda não se tem vida sexual ativa, mas também com a gestão de recursos. “Sabe-se que até aos 14 anos (13 anos completos), vacinar os e as adolescentes permite uma boa resposta imunitária usando apenas duas doses. Depois dos 14 anos, é necessário administrar três doses da vacina, o que fica obviamente mais caro para o Ministério da Saúde”, refere o Prof. Luís Varandas.

 

Porquê incluir os rapazes?

Não obstante a proteção indireta conferida pela vacinação das mulheres, o membro da Comissão de Vacinas da SPP clarifica que “a grande vantagem deste alargamento no PNV é conseguirmos ter imunidade de grupo que, vacinando apenas metade da população – as raparigas –, não era possível ter”. Não existindo imunidade de grupo, o vírus continua em circulação, deixando desprotegidos todos os indivíduos não vacinados, como sejam os homens, especialmente os que têm sexo com homens, e algumas populações, incluindo mulheres, que não conseguiram ou não quiseram ser vacinadas – “a vacinação não consegue atingir 100% da população, seja ela qual for”.

O alargamento, para além de constituir uma tentativa de colmatar este problema, articula-se também com a questão da equidade, com a política de igualdade de género. Por um lado, é conferir maior proteção individual à população masculina; por outro, é tornar a vacina mais acessível, até porque, como conta o especialista, “já muitos rapazes tinham recomendação do médico para vacinar”, sendo que a decisão era muitas vezes tomada em função da (im)possibilidade financeira da família.

Com a introdução no PNV, o Prof. Luís Varandas acredita que os níveis de cobertura vacinal neste grupo serão, à semelhança do que acontece no quadro feminino, satisfatórios. Em relação a esse aspeto, adianta que em Portugal não existe “um problema significativo; os cidadãos têm noção de que se a vacina está no PNV é porque é segura e eficaz”. A DGS estima que com esta medida sejam vacinados anualmente cerca de 40 mil rapazes.

SS/SO

 

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