Anafilaxia. Portugal é único país europeu onde doentes são “discriminados pelo seu nível socioeconómico”

O imunoalergologista considera “atentatório” e “absolutamente lamentável” que as vacinas dessensibilizantes continuem sem comparticipação.

O imunoalergologista Celso Pereira considera “atentatório” e “absolutamente lamentável” que as vacinas dessensibilizantes, que constituem um tratamento curativo para as alergias (e que até podem salvar vidas em alguns casos) continuem sem comparticipação, ficando assim fora do alcance de muitos doentes devido ao custo elevado.

“Somos o único país do espaço europeu onde o doente alérgico é discriminado pelo seu nível socioeconómico, isto é, em que quem não tem possibilidades económicas não tem acesso a um tratamento efetivo específico e modificar da sua doença”, diz o especialista.

Atualmente, e depois da comparticipação de 50% ter sido suspensa em 2011, os doentes alérgicos têm de suportar o custo integral do tratamento com vacinas anti-alérgicas, que supera os 200 euros. Estão em causa pessoas com anafilaxia causada por picadas de vespa ou abelha ou pela ingestão de alguns alimentos e que correm risco de vida.

O tratamento com estas vacinas sublinguais diminui o risco de agudização e é, por isso, live saving, como sublinha Celso Pereira. No entanto, o custo constitui uma barreira intransponível para muitos doentes. “É frequente os doentes dizerem que não têm condições para adquirir o tratamento ou para o manter. Uma embalagem de imunoterapia sublingual custa cerca de 200 euros e dá apenas para uns meses de tratamento. O doente tem de dispor desse dinheiro na totalidade”, refere o médico do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e docente na Faculdade de Medicina daquela cidade.

“Isto é inexplicável. Nos casos de agudização da alergia, o doente tem de suportar todo o custo do tratamento, trazer a vacina para o hospital, onde é feita a administração e onde ainda tem de pagar taxas moderadoras”, explica o atual coordenador do grupo de Interesse de Alergénios e Imunoterapia da SPAIC.

A decisão da tutela de retirar a comparticipação, ainda não revertida, torna-se ainda mais difícil de compreender quando se sabe também, através de inúmeros estudos publicados em doentes com patologia alérgica respiratória, que o tratamento (que normalmente dura entre três e cinco anos) tem uma eficácia muito elevada e é fármaco-económico. “É muito vantajoso em termos económicos, não só porque reduz o consumo de medicação que o doente tem de fazer para toda a vida (e que é comparticipada pelo estado), como também diminui riscos de agudização (com consequências a nível de cuidados médicos, urgências ou mesmo hospitalizações) e o número de consultas de que necessita no SNS”, explica Celso Pereira. Para além disso, melhora claramente a qualidade de vida.

Há nove anos que, tanto o Colégio de Imunolergologia da Ordem dos Médicos (de que Celso Pereira foi presidente) como a Sociedade Portuguesa de Alergologia tentam mostrar à tutela que a decisão de manter estas vacinas descomparticipadas “não tem qualquer razoabilidade científica, política ou económica”. Até agora, sem sucesso. A última reunião com a tutela realizou-se em fevereiro deste ano mas ainda não produziu qualquer consequência. “Um destes dias teremos a notícia chocante da morte de um doente por anafilaxia porque não tinha condições económicas para ser tratado convenientemente”, refere o médico e professor universitário.

Celso Pereira sublinha as doenças alérgicas respiratórias têm “indicações específicas para a utilização destas vacinas em grupos pediátricos”, uma vez que “é nas crianças que se tem de atuar muito celeremente para controlar a história natural da doença e modificá-la precocemente”.

Contudo, nem todos os doentes com doenças alérgicas precisam deste tratamento. “Aqueles com condições clínicas muito ligeiras ou ocasionais não justificam esta abordagem”, explica. Ainda assim, entre 30 a 50% dos doentes necessitariam de um tratamento deste tipo.

Celso Pereira critica o que chama de “discrepância absoluta” entre a forma como a tutela trata as patologias alérgicas e outras doenças. “O estado comparticipa imensas terapias biológicas para outras patologias pretensamente graves, em que gasta milhares de euros com cada doente”, destaca.

O imunoalergologista explica também que a administração destas vacinas faz parte da formação dos médicos internos (que têm de executar pelo menos 100 por via subctânea e têm ainda de monitorizar e vigiar directamente a administração de pelo menos 1000 destas injecções durante a formação), pelo que a limitação do acesso ao tratamento pode também comprometer o treino médico.

eV

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